— Thiago Ghizellini

Ele sempre quis usar óculos. Via as pessoas usando e achava bonito aquele acessório. Usavam óculos escuros, mesmo em ambientes fechados, quando a última coisa que precisariam naquela situação, seria óculos de sol, já que a chuva caía do lado de fora da janela.
Num dia desses, andando sozinho pela rua, viu uma loja onde havia diversos tipos e modelos de óculos. Resolveu entrar. Depois de olhar e experimentar uma porção deles, resolveu comprar um. Ele saiu de lá feliz, satisfeito. Colocou em seu rosto os óculos – e sim, fazia sol naquele dia – e andou pela rua como seu fosse a pessoa mais importante do mundo. Sentia que todos notavam sua presença. Antes, ele imaginava que as outras pessoas também se sentiam justamente desse mesmo jeito ao usar essa armação com lentes escuras.
Os dias se passaram e, seguidamente fazia dias quentes, o que possibilitava o uso contínuo do adereço. Só que depois de se acostumar com aquilo, e sabendo que era mais um na multidão, aquilo parecia tolo e sem sentido. Na volta pra casa, ele jogou os óculos no fundo do armário. Isso já não trazia mais nenhuma vantagem, até porque ver as coisas escuras, como se estivesse com as luzes apagadas, não era assim tão legal.
Sua vida continuava a mesma monotonia de antes. Era feito sempre as mesmas coisas, religiosamente nos mesmos horários. Um tédio, uma agonia sem fim. O dia-a-dia, a convivência com as outras pessoas e a sua realidade, era algo maçante, que frustrava esse cara, já que ele buscava sempre mais. As pessoas riam com ele, já que ele era uma pessoa divertida. Apesar de sua vida e seu lado mais íntimo deixarem a desejar para si mesmo, ele era sempre agradável com todos, e lutava incessantemente pela sua felicidade, algo que depois de muita decepção, parecia não existir.
Seu sorriso não era mais tão radiante e isso era perceptível para os outros. De forma nenhuma ele queria que isso acontecesse. Por mais que seus lábios pudessem sorrir, seus olhos não brilhavam, e depunham contra o que sua boca mostrava. Ora, como alguém podia sorrir e seus olhos mostrarem o contrário? Daí ele lembrou dos óculos que tinha jogado tempos antes, no fundo do armário.
Ele voltou a usá-los, mesmo em ambientes fechados, com chuva e sem sol. Assim, ele poderia rir e gargalhar, que as lentes escuras dos seus óculos poderiam tampar seus olhos úmidos de lágrimas e dor.
Thiago Ghizellini